A compra das armadilhas pela prefeitura foi de R$ 19 milhões, o que representa 28% do valor destinado pelo órgão de vigilância em saúde em 2023. As armadilhas foram distribuídas em bairros da cidade que registraram uma alta taxa de incidência de dengue em 2022. Desde a instalação desses equipamentos, os casos confirmados de dengue no município tiveram uma queda de 11% em relação ao mesmo período do ano passado. No entanto, as mortes relacionadas à doença estão no maior patamar desde 2015.
A tecnologia das armadilhas consiste em baldes pretos com água que atraem o mosquito fêmea do Aedes aegypti. Um tecido impregnado com larvicida e fungo é colocado no interior do equipamento, e quando o mosquito repousa no local, ele é contaminado com essas substâncias. Ao voar para fora do balde, o mosquito carrega o larvicida e contamina outros criadouros, enquanto o fungo diminui a capacidade do inseto de transmitir a doença e o leva à morte em cerca de dez dias.
No entanto, a Fiocruz também desenvolveu uma alternativa nacional de baixo custo e igualmente eficaz, chamada de Estação Disseminadora de Larvicida (EDL). Essa tecnologia também utiliza um balde plástico pintado de preto e uma malha impregnada de larvicida no interior. A diferença é que ela não utiliza o fungo Beauveria. Experimentos conduzidos pela Fiocruz mostraram uma redução significativa da população de mosquitos em cidades onde as EDLs foram utilizadas.
O pesquisador da Fiocruz, Sérgio Luz, afirma que o custo da EDL é de apenas R$ 10, incluindo o larvicida, e que ela é barata, fácil de montar e utilizar. Segundo ele, o equipamento pode ser produzido manualmente pelas equipes de vigilância dos municípios. A Fiocruz e a Universidade Aberta do Sistema Único de Saúde (Unasus) lançaram recentemente uma plataforma online de capacitação de agentes de saúde para a construção das EDLs.
Embora a prefeitura tenha afirmado que o modelo da Fiocruz não é comercial nem escalável para grandes projetos, a instituição realizou projetos-piloto em parceria com municípios como Belo Horizonte, Goiânia, Natal, Recife e Florianópolis. Os resultados desses projetos ainda não estão publicados.
Em São Paulo, servidores relatam dificuldades para manter as armadilhas. Segundo agentes de endemia da Covisa, as equipes são pequenas e não conseguem atender à demanda de milhares de armadilhas instaladas, o que resulta em atrasos na manutenção dos equipamentos. Em alguns casos, moradores chegam a solicitar a retirada das armadilhas ou as colocam no lixo. A prefeitura afirma que contratou novos agentes, mas a Covisa ainda enfrenta dificuldades para lidar com o problema.
Em nota, a Secretaria Municipal de Saúde informou que optou pelo modelo da In2care após estudos e testes, e que os resultados do desempenho das armadilhas serão mensurados durante o verão, quando a proliferação do mosquito é mais intensa. No entanto, a Fiocruz já comprovou a eficácia das EDLs em outros municípios e disponibilizou uma plataforma de capacitação para que agentes de saúde possam construir esses equipamentos de forma fácil e barata. Talvez seja hora de a prefeitura considerar utilizar a tecnologia nacional e de baixo custo da Fiocruz para combater o Aedes aegypti de forma mais eficiente.
